Bebês podem se tornar bilíngues?

Por Janaina Weissheimer.
Pesquisadora do AprendiLab no Instituto do Cérebro da UFRN.

Há muitas vantagens em se estabelecer uma base bilíngue sólida nos primeiros anos de vida. Graças aos chamados períodos sensíveis, em que os neurônios estão ávidos por fazer novas conexões, começar a aprender uma segunda língua cedo reconfigura o cérebro do bebê e o torna mais apto a aprendizagens futuras. Embora sejamos capazes de aprender durante toda a nossa vida, é durante a infância que temos maior neuroplasticidade, ou seja, a propriedade que nosso cérebro tem de modificar-se dinamicamente na interação com o ambiente que o cerca.

O cérebro do bebê é um pequeno estatístico altamente eficiente, que capta informações do meio ambiente e as transforma em aprendizagem. Ele presta atenção na frequência dos estímulos que recebe do ambiente e percebe que aquelas informações com maior frequência são importantes para a sua existência e, então, as codifica e grava. Neste sentido, se expusermos um bebê a duas (ou mais) línguas desde cedo, o seu cérebro vai entender que ambas as línguas são essenciais para sua interação com o mundo e comunicação com os outros seres.

Infelizmente, há vários mitos associados ao bilinguismo infantil, que fazem um desserviço à família e à comunidade escolar como um todo. Um desses mitos é o de que bebês não falam, portanto, não podem ainda aprender uma segunda língua. No entanto, estudos mostram que os bebês aprendem os sons e o ritmo da sua língua nativa desde muito cedo. Prova disso é o fato de que reconhecem a voz da mãe desde o terceiro trimestre de gestação. Isso foi mostrado em um estudo de 2013, que descobriu que nas últimas 10 semanas de gravidez, os fetos ouvem as mães falarem e podem demonstrar o que ouviram quando nasceram. Além disso, os bebês apresentam choro melódico seguindo a cadência da sua língua materna nos cinco primeiros dias de vida.

Outra evidência da habilidade linguística dos bebês é que, no primeiro semestre de vida, eles têm acesso a todos os fonemas possíveis em todas as línguas; ou seja, têm a capacidade de registrar múltiplos sons no seu aparato fonológico amplamente plástico. A partir dos seis meses, quando ocorre a primeira importante poda sináptica no cérebro, este cenário já se modifica e os bebês começam a fixar apenas os fonemas das línguas a que são expostos. Assim, esse sistema fonológico fica mais rígido e menos flexível a mudanças e os fonemas novos, pertencentes a línguas não-nativas, vão ficando cada vez mais difíceis de serem pronunciados.

Outro mito circundando o bilinguismo infantil é o de que apenas pais bilíngues podem criar filhos bilíngues. O fato é que mesmo pais monolíngues podem incentivar o bilinguismo em casa e proporcionar experiências bilíngues para que as crianças, por si só, aprendam a partir dos estímulos que recebem nesses espaços, sendo a escola bilíngue um deles. Ainda, cuidadores podem começar a aprender uma segunda língua ao mesmo tempo que as crianças e utilizar essa língua com os seus filhos. Isso ajuda a expor a criança ainda mais a palavras e frases em outro idioma e traz enormes benefícios dessa conexão que se forma entre pais e filhos, mesmo que os falantes não sejam perfeitamente fluentes.

Mas qual é a explicação para o surgimento de tais mitos? Em parte, do fato de que adultos tendem a julgar a capacidade cognitiva dos bebês levando em consideração a sua própria experiência de aprendizagem de línguas. Não é incomum que os pais tenham passado por dificuldades, típicas de adultos, no processo de aquisição de uma segunda língua e projetem as mesmas dificuldades em suas crianças. Entretanto, como mencionado anteriormente, os bebês são cognitivamente muito capazes de executar tarefas que para nós, adultos, seriam muito difíceis e desafiadoras.

E quais são os benefícios do bilinguismo ao longo da vida? Crianças bilíngues que iniciaram sua experiência enquanto bebês também têm suas funções executivas impactadas positivamente pelo bilinguismo. A constante alternância entre línguas, que é vista muitas vezes pelos pais como uma “salada linguística”, é, na verdade, evidência de um processamento mental extremamente complexo e naturalmente esperado. Tal alternância desenvolve e exercita o controle inibitório e a atenção das crianças bilíngues, criando uma reserva cognitiva que lhes será útil durante toda a vida, inclusive para retardar os efeitos do envelhecimento mais adiante. Em nível cerebral, isso pode ser percebido pelo aumento no volume de massa cinzenta no córtex pré-frontal, a parte frontal do cérebro que é importante para o pensamento de alto nível, como a tomada de decisões e a resolução de problemas. Mas as vantagens não param por aí, a flexibilidade cognitiva ainda torna a criança bilíngue mais empática e sensível culturalmente a outros indivíduos e suas necessidades comunicativas.

Por fim, é claro que podemos aprender novas línguas durante a vida inteira e uma pessoa pode se tornar bilíngue de várias maneiras, em várias etapas da vida. No entanto, considerando o aparato neurobiológico dos bebês, quanto mais cedo, melhor. Sim, bebês podem e devem se tornar bilíngues. Cabe a nós, professores e cuidadores, tornarmos essa experiência bilíngue prazerosa para eles.

Leituras sugeridas:

LENT, R. O Cérebro aprendiz: neuroplasticidade e educação. Atheneu, 2019. DEHAENE, S. É assim que aprendemos: Por que o cérebro funciona melhor do que qualquer máquina (ainda…). Editora Contexto, 2022.

Minibio:

Janaina Weissheimer é Professora Associada no Departamento de Línguas Estrangeiras Modernas da UFRN, membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem e coordenadora do AprendiLab (Laboratório de Aprendizagem e Leitura) do Instituto do Cérebro da UFRN. Possui doutorado em Letras Inglês pela UFSC e realizou estágio pós-doutoral em Neurociências no Kutas Cognitive Electrophysiology Lab na Universidade da Califórnia San Diego UCSD (2014-2015) e em Bilinguismo no Bilingualism Mind and Brain Lab na Universidade da Califórnia Irvine UCI (2023). Seus interesses de pesquisa envolvem Neurociências da Educação, Bilinguismo e Educação Bilíngue e Ciências da Aprendizagem. É pesquisadora nível 2 do CNPq e membro da coordenação da Rede Nacional de Ciência para Educação.